terça-feira, 29 de junho de 2010

Que queres que eu te faça?


Pr. Raul Marques


Uma das passagens bíblicas mais instigantes é, com toda certeza, a do cego Bartimeu, em Marcos 10.51. Encontramos ali diversas lições de convivência pacífica do homem consigo mesmo, com Deus e com as outras pessoas, que nos evidenciam as formas terapêuticas do Senhor Jesus para com todos aqueles que o buscam.
Confesso que sou profundamente apaixonado pela oração mais simples e mais direta que alguém um diz fez na direção de Deus: “
Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” (Mc 10.47). Nesta oração tão curta, tão sincera e tão singela, Bartimeu nos revela o desespero humano na busca da resolução dos seus problemas. Aquela foi a única vez em que Jesus entrou em Jericó, e parece-nos que Bartimeu viu que aquela seria a sua única possibilidade de reversão da cegueira. Quando nós queremos muito que algo se realize em nossas vidas, nós nos esforçamos para que ela esteja cada vez mais próxima de acontecer. Nós vamos à luta. Contrariamos os pessimistas; envergonhamos os incrédulos; fortalecemos a nossa fé; e sentimos a força de Deus cada vez mais evidente conosco.
Nas nossas vidas lidamos diariamente com fatos semelhantes àqueles ocorridos com Bartimeu, embora, nem sempre tenhamos assumido as mesmas posturas dele; o que é uma pena... Quantos de nós imprimem em si mesmos a confiança de que as coisas podem, sim, mudar? Quantos estão julgando impossíveis as soluções para as suas dificuldades e inquietações? Quantos se opõem às multidões que lhe espremem evitando a passagem? Quantos estão dando ouvidos a espíritos enganadores que estão a serviço do cerceamento da vitória? Quantos estão olhando fixamente para as impossibilidades? Por outro lado, quantos estão crendo firmemente que Jesus ouve o nosso clamor? Quantos podem ver pela fé que Jesus se voltará e lhe acolherá ali mesmo, à beira do caminho? Quantos vivem preparados para receber a presença de Jesus em suas vidas? Quantos estão dispostos a vivenciar tudo o que há de vir depois do milagre?
Jesus Cristo, mesmo caminhando em meio a uma multidão que falava e até gritava, não deixou de ouvir a rogativa oração de Bartimeu que, além das imensas dificuldades físicas e emocionais teve que enfrentar a impiedade dos discípulos que o mandavam calar (fato que se repete ainda hoje através daqueles que pensam estar mais próximos de Deus). Jesus ouve o clamor que surge altissonante vindo da margem do caminho, vê a sua compleição, aproxima-se daquele pedinte, e aí lhe dirige uma pergunta estimulante e profundamente terapêutica: “
Que queres que eu te faça?” e Bartimeu, sem titubear, lhe responde: “Mestre! Que eu veja!” então Jesus lhe disse: “Vai, a tua fé te salvou!” Ele, então viu, e seguia a Jesus pelo caminho.
Solte-se das amarras da religiosidade. Desprenda-se dos seguidores legalistas. Fuja das multidões que caminham, mas não seguem. Não desista de se encontrar com Jesus, mesmo que Ele haja de passar uma única vez na sua Jericó existencial. Não se desespere porque está à margem do caminho; a sua solidão pode ser a senha de acesso ao coração de Deus, pois Ele é, e sempre será o “
nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na tribulação”.

sábado, 5 de junho de 2010

LEGITIMIDADE PROFÉTICA

Pr. Raul Marques

Jesus nos ensinou como reconhecer os falsos e os verdadeiros profetas quando vaticinou: “Pelos seus frutos os conhecereis” Mt 7.16. Não se pode esperar bons frutos de árvores estéreis, nem ainda, colher frutos saudáveis de plantas daninhas. Aliás, no princípio, quando Deus criou todas as coisas, Ele instituiu cada um segundo a sua espécie. Portanto, “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” João 3.27. Este é um princípio imutável da vontade soberana de Deus. Assim sendo, é fácil compreender quando alguém tem legitimidade profética e está investido do poder do alto para anunciar as maravilhas do Senhor, além de expressar viva autoridade espiritual através do relacionamento com a Divindade e com as suas criaturas, ensejando mudanças sociais a partir das mudanças provocadas no interior dos que, pela fé, compreendem o amor do Criador.
Ninguém se faz representante de Deus por vontade própria, a menos que tenha propósitos espúrios e convicção de que logo, logo será envergonhado, visto que não recebeu tal autoridade do alto, do Pai das luzes. Todos os que crêem em Jesus Cristo como enviado de Deus para a salvação do mundo, recebem autoridade para desenvolver o ofício de Sacerdote anunciador. No entanto, a cada um é dado conforme a vontade de Deus, o dom profético e específico. Como diria o apóstolo Paulo, “e, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?” ...mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis” I Cor 12.18-19. Não dependemos de nós mesmos para agirmos como profetas de Deus; dependemos, isto sim, exclusivamente da Sua vontade. Não existem auto-profetas; há, pelo contrário, profetas do alto.
A legitimidade de um profeta não está no fato de anunciar-se a si mesmo como tal, mas, na frutificação que virá através dele pelas mãos do Senhor. Frutos da transformação, gerados pelo amor de Deus que, cheio de graça e misericórdia chama, capacita e sustenta os seus profetas, mesmo sabendo que por este fato eles serão perseguidos e até mortos, como ocorreu no passado.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

FIM DE SEMANA DE BÊNÇÃOS

Deus realmente nos surpreende a cada novo dia! Neste final de semana o Senhor me concedeu a alegria de estar com outros irmãos e outros amigos, compartilhando das bênçãos que só Ele pode oferecer. Estivemos Sábado à noite proferindo palestra para quarenta casais na cidade de Pau dos Ferros, a convite do Pr. Ozéas. Em seguida, logo após a palestra, fomos à Área Social da Igreja Batista onde tivemos uma recepção das mais calorosas, juntamente com todos os casais participantes, e participamos de um lauto jantar. Em meio a tudo isso, ficamos felizes com a descontração de todos e com a participação dos casais dando testemunhos de mudança de vida. Cerca de 60% dos presentes não pertenciam a nenhuma igreja evangélica.
No dia seguinte, participamos da Escola Bíblica Dominical e pregamos a mensagem da Palavra de Deus entre os irmãos. Ao meio dia o Pr. Ozéas nos levou para conhecer o Centro de Recuperação de Pessoas com Dependência Química, que fica localizado numa parte de terra cercada por grande volume de água. Fomos numa canoa: eu, Khallil (o meu filho), o Pr. Ozéas e mais dois auxiliares. Lá fizemos um momento devocional, com louvor e oração, além de termos almoçado com todos os residentes lá no Centro. À tardinha, regressamos a Sousa e à noite estivemos na PIB de São Gonçalo, juntamente com os irmãos, glorificando a Deus por tantas oportunidades e tantas maravilhas!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

AONDE ESTÃO INDO AS MULTIDÕES

Pr. Raul Marques

Andar com Jesus é andar literalmente na contramão deste mundo. Todos os que se dispuserem a segui-lo devem estar cientes de que não poderá faltar-lhes coragem para enfrentar inimigos gratuitos que se levantarão ao longo da caminhada. Não devem criar expectativas de que os aliados serão muitos, pelo contrário, serão poucos, aliás, muito poucos: pouquíssimos, finalmente! Não devem alimentar a ilusão de que, pelo fato de estarem no barco com Jesus, as tempestades não virão. Não deverão relaxar por saberem que Ele já multiplicou pães e peixes, pois foi Ele mesmo que afirmou que “nem só de pão viverá o homem”. Não poderão, jamais, baixar a guarda, uma vez que “o Diabo está sempre em derredor buscando a quem possa tragar”. Temos todos que estar em sintonia plena com Ele, sabendo que nos seus ensinos está incluída a máxima: “No mundo tereis aflições, mas, tende bom ânimo, eu venci o mundo”.

Jesus contraria as regras habituais deste mundo. Quase sempre as pessoas decidem seguir as multidões: muitos tendem ao entusiasmo pelas equipes que têm maior torcida; vão aos shows cujos artistas atraem mais platéias; usam as grifes que estão na boca do povo; pensam e agem pelos ditames da mídia; votam pela massificada propaganda; enfim, cultuam divindades que estiverem na moda, independente de saberem que deus estão adorando. Diferentemente, o Senhor Jesus evita todas essas tendências e instala a maior revolução – pela paz – de todos os tempos, através de um pequeno grupo de doze homens, seus primeiros discípulos. Jesus Cristo, o Mestre de todos os mestres, dá-nos uma lição da maior grandeza quando afirma: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mateus 7.13-14). Além disso, Ele acentua: “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mateus 22.14). Muitos afirmavam estar seguindo Jesus; multidões desejavam segui-lo por vários propósitos, como também o fazem hoje. Quando, porém, viram-no preso e ameaçado de ir para a cruz, todos fugiram, cada um com sua justificativa. Ele, entretanto, já cravado no madeiro, antes de expirar, clamou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23.34). Onde estavam, pois, as multidões?

sábado, 15 de maio de 2010

VINGANÇA, NÃO!

Pr. Raul Marques

Meu pai foi um homem muito simples, com grau de instrução primária, mas, sempre muito atento às coisas importantes da vida, ávido pelo conhecimento libertário que abre novos horizontes e capacita para o enfrentamento das lutas diárias. Pois bem, foi através dele que ouvi falar pela primeira vez sobre dois livros com personagens muito marcantes: “Cela 2455 – o corredor da morte”, cuja personagem central era o próprio autor Caryl Whittier Chessman; e “Vingança, não!”, de Francisco Pereira da Nóbrega, que tinha a própria alma descrita na vida da família que protagonizava a história. Essas obras me saltaram à memória em função da violência que vemos acontecer na atualidade, de modo que, apesar de perturbadora, também tem muito a nos ensinar, mesmo que pela dor, evitando a cadeia do mal e o conseqüente desinteresse pelo bem. Vivenciamos hoje uma guerra por dia, e em cada guerra inúmeras batalhas: pela família, pelo emprego, pela paz, pela fé e pelos relacionamentos humanos. Somos hoje uma população mundial de mais de 6,5 bilhões de pessoas que agonizam de alguma forma e que não sabem mais o caminho da convivência, da tolerância e da mutualidade. Até parece que não cabemos dentro do planeta – (a superfície da terra é estimada em 510.065.500 Km2) - e por isso necessitamos empurrar alguns milhares ladeira a baixo todos os dias, na cruel ilusão de que estamos preservando o nosso espaço pessoal.

Chessman não queria vingar-se do mundo e da justiça; ele ansiava, isto sim, que se fizesse justiça a alguém que trazia consigo muitas marcas de sofrimentos e que estava lutando com todas as suas forças para defender a si mesmo. “Em sua pequena cela na penitenciária de San Quentin no estado da Califórnia, a famosa cela 2455, Chessman que só tinha feito o quinto ano primário fez algo que deixou o mundo boquiaberto: leu mais de dois mil livros de direito e tornou-se autodidata em leis... Chessman sofreu sua agonia por nove minutos na Cadeira de Gás, ele que através de dezenas de petições aos tribunais e a corte suprema americana, conseguira adiar por sete vezes a sua execução, desta vez não teve jeito. O coração dele já não bate mais, mataram aquele que no mundo todo se tornara um famoso rapaz, sua luta pela vida e comoveu gente importante demais”.

Chico Pereira transcreveu a saga da própria família marcada pela dor, e cunhou o título da sua obra bem no coração da humanidade: “Vingança, não!”. É de amor que todos necessitamos. Amor capaz de dizer verdades que libertem; que seja capaz de parecer duro, sem ser leviano; que possa produzir mudança e crescimento sem qualquer conotação de vingança. Que os nossos erros tragam consigo lições libertárias e da dimensão do amor, “porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Filho unigênito para que o todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).